{"id":2514,"date":"2018-05-30T10:12:00","date_gmt":"2018-05-30T13:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategista.net\/?p=2514"},"modified":"2018-06-04T16:55:39","modified_gmt":"2018-06-04T19:55:39","slug":"greve-dos-caminhoneiros-uma-aula-de-economia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategista.net\/?p=2514","title":{"rendered":"Greve dos caminhoneiros: uma aula de economia brasileira"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil adota um modelo econ\u00f4mico que agoniza. Pa\u00eds de industrializa\u00e7\u00e3o tardia criou estatais para resolver o problema. Pol\u00edticas p\u00fablicas tentam consertar a hist\u00f3rica desigualdade social: sa\u00fade universal, programas de renda m\u00ednima, educa\u00e7\u00e3o gratuita, aposentadoria para a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, seguro desemprego. Bancos p\u00fablicos subsidiam juros para o setor produtivo. \u00a0A ideia do Estado provedor \u00e9 forte no inconsciente coletivo. Mas o Estado n\u00e3o produz, apenas distribui o que coleta. Essa estrutura custa caro. As alternativas do governo para cobrir seus gastos s\u00e3o cada vez mais limitadas.\u00a0 A greve dos caminhoneiros mostra que o modelo est\u00e1 no limite. Muitos ainda querem continuar no mesmo caminho.\u00a0 \u201c\u00c9 voc\u00ea que ama o passado e que n\u00e3o v\u00ea que o novo sempre vem\u201d, canta Belquior. Definitivamente n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel vivermos \u201cComo nossos pais\u201d.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A equa\u00e7\u00e3o da restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria do governo indica as op\u00e7\u00f5es para o financiamento dos gastos p\u00fablicos. Embora pare\u00e7a complicada, a equa\u00e7\u00e3o \u00e9 intuitiva:<\/p>\n<p><strong>g = t + b\u2019 &#8211; (r &#8211; n)b + (\u03c0 +n)m + m\u2019, onde<\/strong><\/p>\n<p><strong>g s\u00e3o os gastos do governo;<\/strong><\/p>\n<p><strong>t = arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria;<\/strong><\/p>\n<p><strong>b\u2019 = emiss\u00e3o l\u00edquida de t\u00edtulos p\u00fablicos;<\/strong><\/p>\n<p><strong>r = taxa de juros reais (juros nominais menos infla\u00e7\u00e3o);<\/strong><\/p>\n<p><strong>n = taxa de crescimento real do PIB;<\/strong><\/p>\n<p><strong>b = estoque de t\u00edtulos p\u00fablicos;<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u03c0 = infla\u00e7\u00e3o;<\/strong><\/p>\n<p><strong>m =estoque de moeda na economia e<\/strong><\/p>\n<p><strong>m\u2019 = emiss\u00e3o de moeda<\/strong><\/p>\n<p>O financiamento (lado direito da equa\u00e7\u00e3o) dos gastos pode ser feito de tr\u00eas formas: infla\u00e7\u00e3o (\u03c0), endividamento (b\u00b4) e tributos (t). Entre a d\u00e9cada de 60 e in\u00edcio dos anos 90, o governo financiou a expans\u00e3o primordialmente com infla\u00e7\u00e3o. Enquanto as despesas p\u00fablicas eram corro\u00eddas com a perda do valor da moeda, as receitas com tributos sofriam menos com a infla\u00e7\u00e3o. A espiral inflacion\u00e1ria corro\u00eda o poder de compra da popula\u00e7\u00e3o, especialmente a de baixa renda e desestruturava o sistema produtivo. Como debelar a infla\u00e7\u00e3o foi o principal tema da elei\u00e7\u00e3o de 1989. A sociedade mostrava estar cansada com a infla\u00e7\u00e3o. O Plano Real foi eficaz em reduzi-la, mas criou um problema: como continuar financiando o incremento dos gastos p\u00fablicos impostos pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988? A solu\u00e7\u00e3o foi elevar os tributos (t). Essa estrat\u00e9gia come\u00e7ou com o governo FHC e continuou no governo Lula. Mas a sociedade mais uma vez mostrou-se desconfort\u00e1vel. Em 2007, o Senado derrubou a CPMF, tributo calculado sobre as transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias. Outra forma de financiamento atingia seu limite.<\/p>\n<p>A busca por popularidade fez com que os gastos continuassem crescendo, s\u00f3 restando ao governo Dilma utilizar a \u00faltima alternativa \u201cf\u00e1cil\u201d para se financiar: elevar o endividamento. O aumento da d\u00edvida ocorria com a transfer\u00eancia de recursos do Tesouro para os bancos p\u00fablicos a fim de financiar projetos subsidiados como o \u201cMinha Casa Minha vida\u201d e o PSI (programa de sustenta\u00e7\u00e3o de investimentos).\u00a0 O endividamento atingiu n\u00edveis elevados para um pa\u00eds emergente, superior a 70% do PIB. A infla\u00e7\u00e3o come\u00e7ou novamente a se manifestar e o governo a fim de manter o pre\u00e7o dos combust\u00edveis est\u00e1vel fez com que a Petrobras arcasse com a diferen\u00e7a entre o pre\u00e7o do produto importado e o vendido internamente. A d\u00edvida da Petrobras elevou-se de forma perigosa. O valor da empresa em Bolsa despencou. O atual governo com o fim de estancar a sangria na petrol\u00edfera adotou a pol\u00edtica atual de reajuste autom\u00e1tico do pre\u00e7o dos derivados. O pre\u00e7o do combust\u00edvel n\u00e3o seria mais bancado pela estatal, mas pelo consumidor do produto.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse passeio na hist\u00f3ria, chegamos, enfim, a greve dos caminhoneiros. O aumento do pre\u00e7o dos derivados no mercado internacional os atingiu em cheio. O combust\u00edvel, componente importante do pre\u00e7o do frete, sofre reajustes em periodicidade inferior ao do contrato do transportador com seu cliente. O ganho dos caminhoneiros minguou.<\/p>\n<p>Mais ema vez se recorreu ao Estado. A fim de tornar o pre\u00e7o dos combust\u00edveis mais est\u00e1vel, uma das sugest\u00f5es foi de a Petrobras arcar com o custo, esquecendo-se que essa mesma pol\u00edtica p\u00f4s a estatal de joelhos recentemente. Essa hip\u00f3tese foi deixada de lado. Ent\u00e3o, o governo federal abriu m\u00e3os de seus tributos sobre o combust\u00edvel (PIS, Cofins e CIDE) e ficou de bancar a diferen\u00e7a entre o pre\u00e7o do importado e o pre\u00e7o interno. Mas o d\u00e9ficit projetado da Uni\u00e3o para 2018 \u00e9 de R$ 159 bilh\u00f5es (sem contar os gastos com juros). Como o governo pode abrir m\u00e3o de receitas e ainda propor subsidiar o pre\u00e7o do combust\u00edvel nesse cen\u00e1rio?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s d\u00e9cadas de eleva\u00e7\u00e3o dos gastos, a realidade bate a porta. As tr\u00eas op\u00e7\u00f5es de financiamento adotadas at\u00e9 agora se exauriram. Os gastos do governo precisam se reduzir. Por isso, a reforma da Previd\u00eancia e a elimina\u00e7\u00e3o dos gastos sup\u00e9rfluos s\u00e3o t\u00e3o urgentes. O crescimento econ\u00f4mico, que contribuiria para financiar os gastos, n\u00e3o ocorrer\u00e1 com as finan\u00e7as p\u00fablicas em frangalhos e com elevada d\u00edvida. O Estado forte do imagin\u00e1rio popular \u00e9 apenas gordo e sedent\u00e1rio. Belquior diria: \u201cMinha dor \u00e9 perceber \/ Que apesar de termos \/ Feito tudo o que fizemos \/ Ainda somos os mesmos e vivemos\/ Como nossos pais\u201d.<\/p>\n<p><em>Termos de Uso<\/em><\/p>\n<p><em>As an\u00e1lises, opini\u00f5es, premissas, estimativas e proje\u00e7\u00f5es feitas neste blog s\u00e3o baseadas em julgamento do analista respons\u00e1vel e est\u00e3o, portanto, sujeitas \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o sem aviso pr\u00e9vio em decorr\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es nas condi\u00e7\u00f5es de mercado. O analista de investimento respons\u00e1vel por este blog declara que as opini\u00f5es contidas neste espa\u00e7o refletem exclusivamente suas opini\u00f5es pessoais sobre a companhia analisada ou fundos e foram realizadas de forma independente e aut\u00f4noma. As opini\u00f5es contidas neste espa\u00e7o podem n\u00e3o ser aplic\u00e1veis para todos os leitores devido aos diferentes objetivos de investimento e situa\u00e7\u00e3o financeira espec\u00edfica. O autor n\u00e3o se responsabiliza e nem pode ser responsabilizados por preju\u00edzos de qualquer natureza em decorr\u00eancia do uso destas informa\u00e7\u00f5es. Toda e qualquer decis\u00e3o de investimento baseada nas opini\u00f5es aqui expostas \u00e9 de exclusiva responsabilidade do investidor.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil adota um modelo econ\u00f4mico que agoniza. Pa\u00eds de industrializa\u00e7\u00e3o tardia criou estatais para resolver o problema. Pol\u00edticas p\u00fablicas tentam consertar a hist\u00f3rica desigualdade social: sa\u00fade universal, programas de renda m\u00ednima, educa\u00e7\u00e3o gratuita, aposentadoria para a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, seguro desemprego. 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