{"id":1551,"date":"2014-02-24T11:55:15","date_gmt":"2014-02-24T14:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategista.net\/?p=1551"},"modified":"2014-02-24T14:37:24","modified_gmt":"2014-02-24T17:37:24","slug":"a-filosofia-explica-a-forca-das-cias-familiares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategista.net\/?p=1551","title":{"rendered":"A filosofia explica a for\u00e7a das cias familiares"},"content":{"rendered":"<p>Lendo o excelente livro \u201cJusti\u00e7a, o que \u00e9 fazer a coisa certa\u201d do Professor de Harvard Michael J. Sandel me lembrei do acirrado debate sobre a melhor forma de controle societ\u00e1rio: o concentrado ou o difuso. No primeiro, a sociedade possui um controlador definido, enquanto que no segundo as a\u00e7\u00f5es est\u00e3o dispersas entre diversos acionistas, n\u00e3o se formando uma maioria est\u00e1vel. O poder sobre a companhia pode variar de acordo com os arranjos societ\u00e1rios. Estudos indicam que o desempenho das a\u00e7\u00f5es de empresas com controle concentrado, especialmente o das companhias familiares, superam o de outras formas de sociedade. O livro de Sandel parece explicar a raz\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Segundo Sandel, h\u00e1 tr\u00eas categorias de responsabilidade moral:<\/p>\n<p>(i)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 os deveres naturais como tratar as pessoas com respeito ou de evitar crueldades. Como s\u00e3o deveres universais, temos obriga\u00e7\u00e3o de cumpri-los apesar de n\u00e3o termos consentido em faz\u00ea-lo;<\/p>\n<p>(ii)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 as obriga\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias. Segundo os liberais, al\u00e9m dos deveres naturais, s\u00f3 temos obriga\u00e7\u00e3o de cumprir as obriga\u00e7\u00f5es nas quais temos consentido. Nesse caso, est\u00e3o inclu\u00eddos os diversos contratos voluntariamente aceitos pelas partes.<\/p>\n<p>(iii)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 as obriga\u00e7\u00f5es de solidariedade. Diferentemente dos deveres naturais, as obriga\u00e7\u00f5es de solidariedade s\u00e3o particulares, e n\u00e3o universais. Elas n\u00e3o dependem de um ato de consentimento, mas fundamentam-se no reconhecimento de que minha hist\u00f3ria de vida deriva da hist\u00f3ria de outras pessoas.<\/p>\n<p>No final do livro, Sandel coloca a seguinte quest\u00e3o: as gera\u00e7\u00f5es atuais devem pagar por erros do passado como a escravid\u00e3o, os crimes cometidos por Adolf Hitler ou crimes contra os abor\u00edgenes da Austr\u00e1lia? \u00a0\u00c9 a \u00faltima categoria de responsabilidade moral que explica as indeniza\u00e7\u00f5es \u00e0s popula\u00e7\u00f5es negras como o regime de cotas em universidades, as desculpas p\u00fablicas do governo alem\u00e3o pelo passado e o pedido oficial de desculpas ao povo abor\u00edgene. As gera\u00e7\u00f5es atuais n\u00e3o foram respons\u00e1veis por tais crimes, mas o sentimento de que possuem uma hist\u00f3ria comum com seus antepassados geram a necessidade de uma repara\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma obriga\u00e7\u00e3o moral de faz\u00ea-la.<\/p>\n<p>A teoria das obriga\u00e7\u00f5es de solidariedade foi criada por Alasdair MacIntyre. Entre v\u00e1rios caminhos, n\u00e3o escolho apenas o baseado na minha vontade, mas de acordo com a minha hist\u00f3ria de vida. Essa concep\u00e7\u00e3o se op\u00f5e ao individualismo moderno que exige que eu deixe de lado ou que abstraia minhas identidades e heran\u00e7as sociais.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o narrativa de MacIntyre explica a for\u00e7a das companhias familiares. Por defenderem o nome de sua fam\u00edlia, suas heran\u00e7as sociais, os atuais administradores tendem a ser mais respons\u00e1veis com funcion\u00e1rios e parceiros. Al\u00e9m disso, possuem uma vis\u00e3o de longo prazo, pois a prosperidade da fam\u00edlia est\u00e1 ligada ao comprometimento com o neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Estudo da IE Business School de Madri, citada na reportagem \u201cEmpresas familiares ganham espa\u00e7o nas carteiras de gestores no p\u00f3s-crise\u201d publicada no Valor Econ\u00f4mico de 27 de agosto de 2013, concluiu que \u201c\u00a3 1.000 aplicados em uma carteira focada em empresas familiares ponderada por valor de mercado viraram \u00a3 3.533 em um per\u00edodo de dez anos at\u00e9 2010, ante \u00a3 2.241 apresentado por um portf\u00f3lio formado por empresas n\u00e3o familiares\u201d. O IE define como empresa familiar aquela que um indiv\u00edduo ou fam\u00edlia mant\u00eam pelo menos 20% de suas a\u00e7\u00f5es e na qual pelo menos um membro da fam\u00edlia participe do conselho de diretores. Esse estudo corrobora outro \u2013 o do acad\u00eamico americano Jim Lee \u2013 no qual as empresas familiares nos EUA tiveram um crescimento m\u00e9dio da receita de 14% e margem l\u00edquida de 10% num per\u00edodo de dez anos at\u00e9 2002, comparado a 9% e 8%, respectivamente das empresas n\u00e3o familiares.<\/p>\n<p>Por outro lado, Herbert Steinberg e Josenice Blumenthal no livro \u201cA fam\u00edlia empres\u00e1ria\u201d citam algumas desvantagens das empresas familiares, especialmente as n\u00e3o profissionalizadas como a informalidade e a falta de disciplina por n\u00e3o estabelecerem processos e procedimentos, confus\u00e3o entre propriedade e gest\u00e3o e lutas constantes pelo poder. Contudo, o principal ponto cr\u00edtico parece ser a sucess\u00e3o. Nessa fase da companhia, alguns problemas podem surgir como o fracionamento do poder sucess\u00f3rio, conflitos sobre a perspectiva do neg\u00f3cio entre membros da fam\u00edlia, tend\u00eancia ao conservadorismo e ao paternalismo, RHs baseados em amizade e familiaridade e conflitos de interesse e atritos entre familiares.<\/p>\n<p>O setor imobili\u00e1rio brasileiro comprovou a for\u00e7a das companhias familiares. Em um segmento inst\u00e1vel, cuja prud\u00eancia assume caracter\u00edstica importante, as empresas familiares Eztec (EZTC3) e Helbor (HBOR3) apresentaram desempenho muito superior \u00e0s de capital pulverizado Gafisa (GFSA3) e PDG (PDGR3). As \u00faltimas abra\u00e7aram o crescimento via aquisi\u00e7\u00f5es e expandiram-se geograficamente, al\u00e9m de lan\u00e7arem diversos tipos de empreendimentos (residenciais de baixa e alta renda, comerciais e loteamentos). J\u00e1 Eztec e Helbor apostaram no crescimento org\u00e2nico, concentrando suas opera\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo e em uma gama reduzida de tipos de projetos. Nesse caso, o conservadorismo ditado pela vis\u00e3o de longo prazo venceu a atua\u00e7\u00e3o agressiva em busca de resultados imediatos.<\/p>\n<p><em>Termos de Uso<\/em><\/p>\n<p><em>As an\u00e1lises, opini\u00f5es, premissas, estimativas e proje\u00e7\u00f5es feitas neste blog s\u00e3o baseadas em julgamento do analista respons\u00e1vel e est\u00e3o, portanto, sujeitas \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o sem aviso pr\u00e9vio em decorr\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es nas condi\u00e7\u00f5es de mercado. O analista de investimento respons\u00e1vel por este blog declara que as opini\u00f5es contidas neste espa\u00e7o refletem exclusivamente suas opini\u00f5es pessoais sobre a companhia analisada ou fundos e foram realizadas de forma independente e aut\u00f4noma. As opini\u00f5es contidas neste espa\u00e7o podem n\u00e3o ser aplic\u00e1veis para<\/em><em><\/em><em> todos os leitores devido aos diferentes objetivos de investimento e situa\u00e7\u00e3o financeira espec\u00edfica. O autor n\u00e3o se responsabiliza e nem pode ser responsabilizados por preju\u00edzos de qualquer natureza em decorr\u00eancia do uso destas informa\u00e7\u00f5es. Toda e qualquer decis\u00e3o de investimento baseada nas opini\u00f5es aqui expostas \u00e9 de exclusiva responsabilidade do investidor.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lendo o excelente livro \u201cJusti\u00e7a, o que \u00e9 fazer a coisa certa\u201d do Professor de Harvard Michael J. Sandel me lembrei do acirrado debate sobre a melhor forma de controle societ\u00e1rio: o concentrado ou o difuso. 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